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segunda-feira, 20 de outubro de 2008

Ritmos diferentes


Tem havido muito alarme e discussão sobre o desemprego de recém-licenciados, que tem aumentado nos últimos anos. Independentemente da proporção do problema, o quadro aqui colocado (retirado do Education at a Glance 2008, que pode ser consultado aqui) ajuda a perceber o que pode ter criado a situação actual: se em 1995 apenas 15% dos jovens (em idade habitual de finalização de um curso superior) completavam uma licenciatura (coluna Tertiary-type A), em 2006 era um terço da coorte que o fazia - 33%. Em pouco mais de uma década, a percentagem de jovens a sair com um curso superior mais do que duplicou no nosso país.
Isto ajuda a perceber as dificuldades actuais: a estrutura de formação universitária tem mudado de forma mais muito rápida do que a estrutura dos empregos.

terça-feira, 9 de setembro de 2008

O grande arco do conservadorismo, da esquerda à direita

Lutar contra as desigualdades num país como Portugal é difícil. Para além das dinâmicas de equilíbrio negativo que as sustentam de modo quase semi-automático, grande parte das elites económicas, políticas, profissionais, jornalísticas, etc., só se lembra delas quando se trata de acusar um qualquer governo de incompetência. Nos restantes 300 e tal dias do ano, as desigualdades não trazem grande mal ao mundo. Pelo contrário, permitem ter acesso a produtos e serviços a preços baixos.

Mas é ainda mais difícil lutar contra elas quando agentes altamente qualificados que deviam ter a luta contra as desigualdades no topo, senão da sua agenda, pelo menos da sua preocupação ou sensibilidade, desvalorizam mudanças em processos absolutamente essenciais no mecanismo de reprodução das (ou luta contra as) desigualdades.

Falo, neste caso específico, dos resultados escolares. Para estes agentes, quando os resultados melhoram - e os dados mais recentes mostram que melhoraram -, são "artificiais", ou não merecem "credibilidade", ou são para "inglês ver", ou são "propaganda", ou...ou....

Estes são, recordo ingenuamente, os mesmos resultados escolares que, quando generalizadamente negativos, punem as crianças os jovens, e definem o seu futuro de forma precoce. São os mesmos resultados que, quando generalizadamente negativos, reproduzem ou reforçam a pobreza e as desigualdades, privando as crianças e os jovens de um futuro diferente do dos seus pais. São os mesmos resultados escolares que ajudam a que Portugal exiba - no dia da publicação do enésimo relatório internacional sobre educação que sublinha este problema - um défice quase escandaloso de qualificações nas comparações internacionais.

Mas, suponho, com isto, não parece haver grande problema. O problema mesmo é quando os resultados melhoram. Ora, não, não, isso é que não pode ser! Que isso permita às crianças e jovens outros horizontes escolares e profissionais - e, convém lembrar, ao país - é, parece, absolutamente irrelevante.

Apetece-me dizer que, entre acabar com a retenção e o insucesso escolar e acabar com a OCDE, imagino que muitos escolhessem a segunda hipótese. Ficávamos a saber um bocadinho menos do mundo, mas seguramente mais reconfortados na luta pela "exigência" da educação e contra o "facilitismo" e a "propaganda".

A luta contra as desigualdades é também uma luta contra o conservadorismo - de esquerda e de direita. Para quem sofre as suas consequências, que ele seja de esquerda ou de direita é, afinal de contas, irrelevante.

São 12%, não 60%

Foram publicados hoje os dados do Education at the Glance 2008, relatório anual da OCDE sobre os sistemas educativos. Há dados interessantes, embora não muito actuais (a maioria é de 2005 ou 2006; este é o delay habitual nestes trabalhos internacionais), que pode ser útil explorar neste blogue nos próximos dias. De qualquer forma, não posso deixar de achar interessante que a notícia que está em todos os sites de órgãos de comunicação - e que, suponho, reproduz um take da Lusa da 10 horas da manhã - tenha um erro grosseiro.
Assim, escreve-se:

Educação/OCDE
Portugal é segundo país de 27 com mais empregados sem qualquer qualificação
2008-09-09, 10h00
Lisboa, 09 Set (Lusa) - Cerca de 60 por cento da mão-de-obra em Portugal não tem qualquer formação específica, sendo apenas ultrapassada, entre 27 países ocidentais, pela Turquia, onde aquele indicador se situa nos 64 por cento, revela um relatório internacional.



Este indicador é muito importante, e é tratado logo no primeiro capítulo do relatório (indicador A1 (pp.28-50)). Mas o autor desta peça faz uma confusão enorme. Atente-se no quadro que está aqui em baixo, a partir qual a notícia foi, imagino, feita.

A OCDE divide as ocupações em 9 categorias, de acordo com a ISCO - International Standard Classification of Ocupations. Da responsabilidade da Organização Internacional do Trabalho, a ISCO é a grelha internacionalmente mais usada para organizar as ocupações em função das suas tarefas e funções. Como se pode ver, a ISCO tem 9 categorias:
Categoria 1: Legislators; senior officials; managers
Categoria 2: Professionals
Categoria 3: Technicians; associate professionals
Categoria 4: Clerks
Categoria 5: Service workers
Categoria 6: Skilled agricultural and fishery workers
Categoria 7: Craft and related trades workers
Categoria 8: Plant and machine operators; assemblers
Categoria 9: Elementary occupations

Para facilitar a análise neste reatório, a OCDE juntou as categoria 1, 2 e 3 em ocupações qualificadas (skilled); as categoria 4, 5, 6, 7 e 8 em ocupações semi-qualificadas (semi-skilled); e deixou a categoria 9 sozinha, relativa às ocupações não-qualificadas (unskilled) (como explica na página 34).

Podemos discordar deste processo de agregaçao de categorias; mas não podemos chamar nomes diferentes às coisas. Quando a notícia em causa diz que «cerca de 60 por cento da mão-de-obra em Portugal não tem qualquer formação específica», comete não um, mas dois erros. Primeiro, o indicador refere-se aos empregos, e não à mão-de-obra. (esta diferença é importante, porque uma das análises do relatório incide precisamente sobre a distinção entre o tipo de empregos existentes na estrutura económica e as qualificações da mão-de-obra. Por exemplo, conclui-se que em todos os países existem mais empregos - definidos como - qualificados do que mão-de-obra - definida como - qualificada. Este é um aspecto que podemos analisar num outro post.).

Segundo, basta olhar para a tabela - para a última coluna da direita (25-to-64-year-old population) - para ver que, para Portugal, o valor de 60 está na célula relativa às semi-skilled occupations (que agrega, relembro, as categorias 4, 5, 6, 7 e 8 da ISCO). Reporta-se a empregos na indústria, no comércio, nos serviços, na agricultura e na pesca que exigem competências (e/ou qualificações) específicas. Não se trata de forma alguma de empregos - ou, como diz a notícia, repito, erradamente - de «empregados sem qualquer qualificação». Se queremos saber quantas pessoas estão em empregos "desqualificados", vemos então que são 12% (para o ano de 2006; 13% em 1998).
Os 60% dizem respeito, antes, a ocupações semi-qualificadas, nos mais diversos sectores e actividades.

quarta-feira, 16 de julho de 2008

Apenas uma ideia

Em tempos de crise como os que estamos a atravessar é hora do Estado e, mais propriamente, do governo se virar para o tecido produtivo do país. Não só se justificam medidas concretas para as pequenas e médias empresas (algumas delas até têm sido anunciadas nos últimos meses), mas, acima de tudo, exige-se uma estratégia geral que enfrente os problemas estruturais. Tenho vindo a focar uma das vertentes que me parece ser das mais gravosas: a composição débil da classe empresarial que apresenta um enorme défice de qualificação. Normalmente, aponta-se (e bem) o baixo nível de escolaridade dos trabalhadores como um dos principais factores do nosso atraso económico. Mas, esquece-se a situação, não menos problemática, dos empregadores. Dado o cenário, considero que seria interessante avançar-se com um programa geral de apoio às pequenas e médias empresas que enquadrasse a formação profissional dos empresários. Ou seja, fazer depender um conjunto de medidas de apoio financeiro (como as que têm sido postas em prática) – que incidem ou nos benefícios fiscais ou na redução controlada de juros aos empréstimos concedidos – da formação e qualificação profissional não só dos trabalhadores como dos próprios empresários. A economia portuguesa necessita de patrões com maior capacidade de investimento e, sobretudo, de inovação. Não há outra forma de dotá-los dessa capacidade senão apostar na sua qualificação. E para isso é fundamental a definição de uma série de deveres e de responsabilidades a partir de um contrato social (ou, se quisermos, a partir de um código de conduta empresarial).

segunda-feira, 14 de julho de 2008

Quando as instituições são mais importantes que a educação

O Renato tem escrito, e bem, sobre o défice de escolarização do patronato português. Parece-me essencial a identificação desta situação e a análise aprofundada desta variável, mais um (dos vários) problema(s) a nível estrutural que temos de ultrapassar. Mas parece-me ir longe demais transformá-la num alibi para o bloqueio acordos entre o capital e o trabalho e impeça estratégias corporatistas inteligentes.

1. Olhando para a história, dá para perceber o porquê da minha desconfiança do peso excessivo das qualificações dos patrões (atenção: falo do peso desta variável na dimensão da negociação e concertação social, não da modernização das empresas; aqui, concordo com o Renato, o capital educacional dos proprietários é muito importante). No passado, a escolaridade destes (e de sindicalistas) era também baixíssima: com toda a probabilidade mais baixa do que aquela que os nossos patrões apresentam hoje. Pensemos nas bases dos Estados sociais lançadas na Europa no último quartel do século XIX por essa Europa fora, ou nos acordos realizados nos anos 30 do século XX, ou no período imediatamente pós-1945. Nem os patrões nem os sindicalistas eram, por certo, altamente escolarizados. E, todavia, o corporatismo floresceu.
Inversamente, e ceteris paribus, nem um MBA ensina um proprietário/gestor a valorizar o diálogo social e os direitos sociais (não são as business schools embriões da ideologia neo-liberal?), nem a alta qualificação dos sindicalistas consegue ultrapassar questões de estratégia política definida por partidos (Carvalho da Silva é, tanto quanto sei, doutorado em sociologia, e isso não muda a estratégia da CGTP).

2. A questão aqui tem muito mais a ver, parece-me, com variáveis políticas e institucionalistas do que com variáveis cognitivas/educacionais: tem a ver com a estratégia política que determina centralmente o que os sindicatos devem fazer (negando a sua autonomia relativa); e tem a ver com uma série de factores estruturais da economia que influenciam decisivamente o comportamento dos parceiros sociais. Por exemplo, a teoria institucionalista mostra como a existência de centrais sindicais em competição directa provoca uma situação potencialmente desastrosa, originando uma corrida egoísta e irresponsável aos "direitos sociais", e a um contínuo esticar a corda independentemente dos efeitos que isso tenha na economia (porque tem naturalmente; por exemplo, não podemos aumentar o salário mínimo como nos apetece sem por uma larguíssima fatia do tecido económico com a corda na garganta); a somar a isto, esse efeito de competição e de reivindicação no limite irresponsável é reforçado se essas centrais sindicais cobrirem pouca parte da mão-de-obra: de novo, nenhuma delas tem incentivo para tomar em consideração o que acontece economia no seu todo. A mesma coisa acontece no lado do patronato: a concorrência entre confederações e fraca representatividade tornam mais complicadas as estratégias de concertação social e fornece incentivos a que, precisamente, parte dos patrões procurem "esticar a corda" para o seu lado.
A estrutura da nossa economia, com uma forte centralidade da pequena propriedade e a fraca capacidade de representaçao tanto do lado do patronato como do trabalho gera situações de dilema do prisioneiro e jogos de soma nula muito complicadas.

3. Mais ninguém tem interesse em valorizar - a sério, e não retoricamente... - o diálogo social do que os sindicatos. É fácil perceber porquê. A concertação social, ou seja, o mecanismo de voice, é um mecanismo de coordenação alternativo ao mercado. Se o trabalho conseguir unir-se e alcançar acordos com o capital, não ganha só ideologicamente («ora vejam, a economia de mercado funciona, e talvez melhor, através das instituições corporatistas, e não pela concorrência num mercado aberto!»), mas também estratégica e institucionalmente, reforçando a sua capacidade de gestão da economia nacional e mostrando ao capital que vale a pena usar os mecanismos de concertação e cooperação sócio-económica. Inversamente, se estes mecanismos não funcionarem ou forem sistematicamente desvalorizados pelo trabalho (ou parte dos seus representantes), o capital vai tirar as suas conclusões: «se não nos entendemos por aqui a bem, só nos resta uma alternativa: fazer pressão para 'neo-liberalizar' as instituições e as políticas». Situações de ausência de diálogo e/ou bloqueio corporatista são o perfeito convite para o capital perder a paciência e a confiança nas instituições não-mercantis. O resultado é um push em direcção ao neo-liberalismo. Onde a voice não resulta, a exit é a única estratégia.

4. Solução à vista? Não ganhamos nada em ser fatalistas. Mais: não nos podemos dar a luxo, sob pena de nunca alterarmos nada na nossa eficiência da nossa arquitectura institucional.
Primeiro, porque tanto o trabalho como o capital não são actores inimputáveis. Eles podem ser persuadidos de que há estratégias colectivas melhores e piores. O Governo (e outros actores individuais e colectivos, a começar pelos académicos interessados) pode e deve desempenhar esse papel mediador.
Segundo, quando os sindicatos e os patrões têm dificuldade em entender-se em sede de concertação social, ou são poucos representativos dos actores económicos do país, devemos procurar criar-se um espaço de negociação alternativo, que se articule com este nível nacional. Esse foi durante muito tempo o segredo da estratégia sindical alemã, um país, que, ao contrário dos países europeus mais pequenos, não conseguiu ao longo da segunda metade do século XX unificar a sua força de trabalho debaixo da DGB. No entanto, a sua performance económica e a legitimidade social do sindicalismo sempre aproximou a Alemanha do comportamento dos países pequenos. Como? Porque, à parte do nível de negociação nacional, os trabalhadores sempre tiveram 'voz' dentro das empresas ao nível dos conselhos dos trabalhadores. Não sendo 'dominados' pelos sindicatos com representação a nível nacional na DGB, estes espaços permitem tradicionalmente aos trabalhadores, em articulação com os patrões e com os sindicatos (a nível nacional), coordenar o esforço de ajustamento empresarial contínuo numa economia mais globalizada. Este sistema de representação dual é polivalente e flexível e, usado inteligentemente e com a cooperação patronal, permite encontrar estratégias de soma positiva.

Já agora, aumentar o poder dos conselhos dos trabalhadores é algo que, por cá, a revisão do Código do Trabalho procura fazer. Vai resultar? Não sei, vamos ver. (mas que a CGTP não goste é, parece-me, um sinal muito interessante: será esta uma luta antecipada entre os sindicatos e os conselhos de trabalhadores?...).

Mas de uma coisa estou certo. Ficar tudo na mesma não vai beneficiar os trabalhadores portugueses. É que convém não fazer como a avestruz e meter a cabeça debaixo da areia. Os nossos salários estão, em média, mais altos do que a nossa produtividade permitiria (por favor, leia-se o paper que Olivier Blanchard escreveu sobre Portugal: discutir o futuro sem ter em conta estes elementos é como estarmos a comentar filmes diferentes).
A questão não é se precisamos de fazer um ajuste de competitividade. É como o fazemos. Ou é a bem ou é a mal. A mal é através da estratégia de choque pelo contínuo desemprego e fragmentação das relações laborais, isto é, da desinflação competitiva, que leva a uma baixa progressiva dos salários em contexto de conflito social e ecónómico. A bem é a estratégia de contínuos acordos entre capital e trabalho, numa adaptação inteligente a um futuro muito difícil (como têm feito, por exemplo, os holandeses).

Errar, pela enésima vez, os passos a dar sairá muito mais caro às gerações futuras do que putativas obras públicas mastodônticas. E por favor não façamos um mau uso das ciências sociais, legitimando um determinismo excessivo que só desresponsabiliza os actores colectivos. A luta contra os determinismos é precisamente aquilo a que chamamos política.

terça-feira, 8 de julho de 2008

O que se esconde por trás do ataque ao 'eduquês'

«(...)[U]m país civilizado tem de garantir uma boa educação básica a todos os seus cidadãos (é isto que realmente significa a igualdade de oportunidades), preservando as universidades para as suas elites intelectuais. Aqueles que argumentam que uma expansão acelerada do Ensino Superior é um instrumento de democratização, ou de crescimento económico, estão a enganar-se a si próprios e, o que é pior, aos outros».

Estas linhas não foram escritas há 50 anos, mas em 2003 por Maria Filomena Mónica. Ilustram de forma exemplar a ideologia daqueles que têm um sério problema com a "escola para todos". Não é possível compreender o exercício a que a autora se entregou na passada semana nesse jornal de facção que se tornou o 'Público' sobre o exame de Português [muito justamente ridicularizado aqui] sem perceber que, se ela mandasse, o ensino superior seria monopólio de uma pequena elite. Dado que, felizmente, a situação não é hoje do seu agrado, a autora acha ridículo e inaceitável tudo o sistema do ensino actual produz.

Para ter uma ideia do que produz um ensino superior historicamente monopolizado pelas elites, basta atentar nos quadros seguintes, que mostram o prémio salarial que advém da posse de um diploma do ensino superior nos países da OCDE (Portugal está no segundo do dois quadros, retirados do Education at the Glance 2007; ver a última coluna All tertiary education). Portugal é, depois Hungria e da República Checa, o país onde este valor [179, tanto para os indivíduos entre os 25 e os 64 anos como para aqueles entre os 30 e os 44 anos; ensino secundário = 100] é o mais elevado. Pior do que isso: em nenhum país a qualificação inferior ao 12.º ano é tão penalizadora, dado que os indivíduos os 25 e os 64 anos nesta situação ganham, em média, apenas 57% dos que possuem o 12.º ano [com uma ligeira subida para 62% no grupo entre os 30 e os 44 anos].
Sendo verdade que a dispersão salarial não é explicada apenas pela dispersão das qualificações, em Portugal esta correlação é muito forte; do grupo da população entre os 25 e os 64 anos, em 2005 apenas 13% da população possuía um curso do ensino superior. Pior, na OCDE, só a Turquia, com 10%, e a Itália com 12%; a República Checa apresenta os mesmos 13% que nós [ver o terceiro quadro].

"Preservar as universidades para as elites", como advoga Maria Filomena Mónica, é a forma mais clássica que elites dispõem para reproduzir o seu poder económico, cultural e, em última análise, político. Não é de espantar que elas o defendam. Mas é, nos tempos que correm, a estratégia menos sofisticada e mais reaccionária. Olhando para estes quadros, qual é o "país civilizado" - que, segundo a autora, e retomo da citação anterior, «tem de garantir uma boa educação básica a todos os seus cidadãos (...), preservando as universidades para as suas elites intelectuais» - que faz o que Maria Filomena Mónica advoga?

A resposta é muito, mas muito simples: nenhum. Este país "civilizado" não existe. A única explicação é que ficou para trás na história - na segunda metade do século XIX, ou talvez na primeira do século XX. Depois, foi sempre a descer. Os filhos dos pobres saíram do «buraco onde nasceram» e entraram na escola. O fim da "civilização", portanto.

Estas "elites" não estão no país errado. Elas estão no milénio errado. Perdoem-lhes a indignação com que enchem, por sistema, as páginas do "Público".

sábado, 21 de junho de 2008

Onde o habitual "facilitismo" tem deixado Portugal

Num dia em que uma parte do país protesta pelo facto de os exames de matemática do 9.º ano terem sido alegadamente uma prova «mais fácil do que nos anos anteriores» - aparentemente alimentando a velha ideia de que exame que não sirva para chumbar muitos, não é exame decente, e que a validade dos exames se mede no nível de alunos que pretende deixar para trás - convinha recordar o que separa Portugal do resto da Europa. Se o nosso sistema é "facilista", imaginem se fosse mais selectivo do que já é (porque o é: o problema é que preferimos manter ao longo de um tempo um sistema selectivo sem introduzir métodos pedagógicos que permitissem fazer subir o nível dos alunos mais fracos, agindo precocemente sobre eles). Com algum azar, estaríamos fora do mapa (o gráfico é retirado daqui).
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terça-feira, 10 de junho de 2008

Empregadores pouco qualificados

O défice de escolarização da população empregada representa um dos mais graves problemas estruturais de Portugal, como bem frisou o Hugo. Mas atenção, quando se refere a questão da escolarização, normalmente olvida-se a situação dos empregadores. Ora bem, segundo os dados do Inquérito ao Emprego (de 2007), verifica-se que somente 13% dos nossos empregadores detêm um diploma de ensino superior, somando-se uma percentagem similar com secundário e pós-secundário. Isto significa que 74% dos patrões portugueses têm um grau de escolarização que não ultrapassa o 3º ciclo (antigo 9º ano), sublinhe-se que 35% não tem mais do que a antiga 4ª classe.
Por seu turno, o nível de escolarização dos trabalhadores por conta de outrem, apesar de muito insuficiente, tende a ser melhor: 18% completou o secundário e 16% o ensino superior. Estes números são bem elucidativos em relação ao nosso tecido empresarial. Representam um dos traços mais marcantes e uma das maiores fragilidades do sistema económico português.
De facto, o perfil da nossa economia não é somente dominado por pequenas e médias empresas (o que em si não é propriamente um factor negativo), o problema é que muitas destas são dirigidas por empresários detendo baixíssimos níveis de qualificação. A formação profissional e a exigência da qualificação não deverão direccionar-se somente para os trabalhadores. É fundamental uma re-qualificação de parte substancial dos empresários portugueses.

segunda-feira, 9 de junho de 2008

Desigualdades salariais: as qualificações ou as instituições? II

Em jeito de adenda ao mesmo post do João Rodrigues - que aproveito como deixa para levantar um problema de que já tinha falado, mas não em profundidade (embora já tivesse trabalhado este tema há já bastante tempo, noutro sítio) -, que questiona: «como explicar que as desigualdades salariais tenham aumentado num período (1995-2005) em que, apesar de tudo, as qualificações dos portugueses aumentaram de forma assinalável?».

Ora, é indubitável que durante este período as qualificações dos portugueses cresceram imenso. E é indubitável que elas cresceram de forma mais equitativa em relação à estrutura de qualificações da geração dos nossos pais. Mas também é indubitável que este crescimento é ainda muito desigual. E vai continuar a pesar - de forma mais ou menos acentuada: aqui o papel das instituições é sem dúvida importante - na dispersão salarial do futuro.

Aliás, a polarização que James Heckman (que citei num post anterior) refere relativamente aos EUA - «sociedade americana está a polarizar-se. Proporcionalmente, mais jovens americanos estão a concluir a universidade do que no passado. Ao mesmo tempo, a taxas de conclusão do ensino secundário sao as mais baixas do que há 40 anos» - faz lembrar o que se passa em Portugal, cuja realidade podia ser descrita desta forma: mais jovens portugueses estão a concluir a universidade do que no passado. Ao mesmo tempo, as taxas de conclusão do ensino secundário continuam a ser as mais baixas da Europa desenvolvida.

Temos por isso uma perigosa bifurcação ao nível das qualificações: uma parte muito significativa de cada coorte vai para o ensino superior (os números de 2003/2004 não nos deslustram: da população entre os 20-24 anos, 46.8% estava no ensino superior, enquanto a média da UE25 era 50.7%; ampliar a Table 2.4., retirada daqui, para ver melhor), enquanto uma fatia extraordinariamente significativa da outra parte fica pelo caminho - sem o ensino secundário. O segundo quadro mostra como Portugal está na cauda do grupo de países onde os jovens entre os 18 e os 24 anos e que apenas completaram a escolaridade obrigatória (9.º ano) estão fora do sistema educativo e de formação.
Se a isto juntarmos o previsível efeito de que a saída precoce do sistema de ensino correlaciona fortemente com o risco de pobreza do indivíduo (ver quadro seguinte para a UE15, tirado dos anexos deste relatório: o valor é de 0.657), então vemos a consequência - presente e futura - de negligenciarmos o funcionamento - e os seus outputs - do sistema educativo.


A boa notícia é que o insucesso no ensino secundário está em queda - que esperamos possa ser sustentada. A notícia é que o insucesso das últimas décadas vai pagar-se muito caro. Vai pagar o país e vão pagar os indivíduos que não saíram do sistema de ensino sem um diploma do secundário. Por isso é essencial que eles voltem à escola (se ainda tiverem idade) ou ao sistema de formação. E por isso é essencial que não se desvalorize a luta contra a recuperação que o país necessita de fazer neste campo. Tal como na luta contra as desigualdades de rendimento, só uma coligação transideológica, transpartidária e que mobilize todos os parceiros sociais é que pode permitir fazer esse caminho.

domingo, 8 de junho de 2008

Desigualdades salariais: as qualificações ou as instituições?

O João Rodrigues escreveu um post interessante sobre a questão das desigualdades salariais. Para complementar o comentário que deixei, ficam duas figuras que mostram a posição de Portugal na distribuição das qualificações e na distribuição das desigualdades de rendimentos. Estamos na cauda de ambas, e só a Turquia e o México ficam atrás (estes dois países estão no quadro relativo à percentagem de pessoas que completaram o 12.º ano mas estão ausentes do quadro que apresenta os valores do índice de Gini, cujos dados são do Eurostat. No entanto, ambos os países são mais desiguais que o nosso. O valor de Gini era para o México de 50.9 em 2005 e para a Turquia de 43.6 em 2003).



Ou seja, a correlação entre a desigualdade de salários e a desigualdade de qualificações é, em Portugal, altíssima, quando fazemos as devidas comparações internacionais.
Isto não significa que este seja o único factor responsável pela desigualdade no nosso país, e não significa que seja o único espaço que necessita de intervenção das políticas públicas - o reforço/centralização da concertação social e da negociação colectiva, como o João refere, são muito importantes, tal como é a taxa de cobertura sindical.
Os quadros seguintes - retirados deste livro e deste livro, respectivamente, mas que não incluem Portugal - mostram a importância destas variáveis para o conjunto dos países mais ricos.




Mas atenção: nos países aqui presentes não é apenas a compressão salarial que é muito maior que em Portugal - a compressão das qualificações também o é.
As qualificações ou as instituições? Ambas, claro está, contando mais as primeiras ou mais as segundas em função da história de cada país. Mas também a estrutura do tecido económico: a pequena empresa - hegemónica em Portugal - é quase sempre antitética de altas taxas de sindicalização e da centralização da negociação colectiva e, por isso, da compressão salarial: o tal comboio que varreu quase toda a Europa Ocidental nas décadas que se seguiram à 2ª Guerra Mundial - e que Portugal não apanhou a tempo.

Nota: o índice de Gini do Eurostat para Portugal é sistematicamente mais elevado do que o valor publicado pelo INE. Um dos motivos é porque o Eurostat não inclui a componente de rendimento não monetária, muito importante nos orçamentos das famílias portuguesas.