domingo, 8 de junho de 2008

Desigualdades salariais: as qualificações ou as instituições?

O João Rodrigues escreveu um post interessante sobre a questão das desigualdades salariais. Para complementar o comentário que deixei, ficam duas figuras que mostram a posição de Portugal na distribuição das qualificações e na distribuição das desigualdades de rendimentos. Estamos na cauda de ambas, e só a Turquia e o México ficam atrás (estes dois países estão no quadro relativo à percentagem de pessoas que completaram o 12.º ano mas estão ausentes do quadro que apresenta os valores do índice de Gini, cujos dados são do Eurostat. No entanto, ambos os países são mais desiguais que o nosso. O valor de Gini era para o México de 50.9 em 2005 e para a Turquia de 43.6 em 2003).



Ou seja, a correlação entre a desigualdade de salários e a desigualdade de qualificações é, em Portugal, altíssima, quando fazemos as devidas comparações internacionais.
Isto não significa que este seja o único factor responsável pela desigualdade no nosso país, e não significa que seja o único espaço que necessita de intervenção das políticas públicas - o reforço/centralização da concertação social e da negociação colectiva, como o João refere, são muito importantes, tal como é a taxa de cobertura sindical.
Os quadros seguintes - retirados deste livro e deste livro, respectivamente, mas que não incluem Portugal - mostram a importância destas variáveis para o conjunto dos países mais ricos.




Mas atenção: nos países aqui presentes não é apenas a compressão salarial que é muito maior que em Portugal - a compressão das qualificações também o é.
As qualificações ou as instituições? Ambas, claro está, contando mais as primeiras ou mais as segundas em função da história de cada país. Mas também a estrutura do tecido económico: a pequena empresa - hegemónica em Portugal - é quase sempre antitética de altas taxas de sindicalização e da centralização da negociação colectiva e, por isso, da compressão salarial: o tal comboio que varreu quase toda a Europa Ocidental nas décadas que se seguiram à 2ª Guerra Mundial - e que Portugal não apanhou a tempo.

Nota: o índice de Gini do Eurostat para Portugal é sistematicamente mais elevado do que o valor publicado pelo INE. Um dos motivos é porque o Eurostat não inclui a componente de rendimento não monetária, muito importante nos orçamentos das famílias portuguesas.

1 comentário:

contestatario disse...

Para além do referido, existe o problema de instrumentalização sindical, fenómeno muito prevalente em algumas sociedades com pequenas variações do modelo eleitoral como o português. Os dados do Eurostat podem ser consultados de forma condensada aqui.