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quinta-feira, 18 de setembro de 2008

O fim do American Dream (ou o regresso às classes sociais)



Estes dois gráficos que comparam a variação do rendimento real das famílias americanas ao longo de dois períodos distintos são verdadeiramente impressionantes. Assim, entre 1947 até ao final da década de 70, o rendimento aumenta de forma quase equitativa em todos os estratos (quintis) de rendimento, com especial incidência para os 20% mais pobres que vêem o seu rendimento crescer em 116%. Note-se que durante estes anos é no escalão dos 5% mais ricos que se verifica o menor aumento (proporcional) de rendimento real.
No período seguinte dá-se uma inversão radical, os mais pobres conhecem uma pequena redução do rendimento real, enquanto no caso dos 5% mais favorecidos o aumento é da ordem dos 81%. Estes gráficos dizem muito sobre a evolução da sociedade americana no que concerne não só ao aumento das desigualdades sociais, mas também aos níveis de mobilidade social ascendente que tenderão a ser cada vez mais reduzidos.
Nota: gráficos retirados daqui.

segunda-feira, 14 de julho de 2008

O dualismo categórico

Acabou de sair este livro, 2º de uma trilogia sobre Portugal no contexto europeu. Gostaria de focar alguns dados apresentados no primeiro capítulo que faz uma comparação transnacional da estrutura de classes, incluindo os respectivos perfis educativos. A partir dos dados do European Social Survey (2004), os autores comparam 22 países europeus tendo por base a tipologia de classes na qual vêm trabalhando há vários anos. Por intermédio de uma simples análise de clusters verificamos que Portugal faz parelha com mais dois países (a Grécia e a Polónia), que se distingue pela sub-representação dos ‘quadros técnicos e de enquadramento’: em Portugal ronda os 14% face à média europeia que se cifra nos 25%. Por seu turno, este mesmo cluster identifica uma sobre-representação para o nosso país na classe dos 'operários' e dos 'trabalhadores independentes'. De salientar que segundo esta tipologia, a Espanha integra o cluster onde a proporção de quadros é mais elevada (a média deste cluster é de 30%, mais do dobro que o anterior).
No entanto, ao considerarem os factores de socialização, como a mobilização de recursos educativos (por intermédio de uma comparação do número médio de anos de escolaridade), os autores apresentam uma distribuição similar em clusters. Também aqui Portugal continua a acompanhar a Grécia e a Polónia, mas, neste caso, encontra-se numa situação ainda mais afastada em relação valores médios. Destaca-se pela negativa o valor obtido pela classe dos ‘empresários, dirigentes e profissionais liberais’, cuja média de anos de escolaridade se fica pelos 7,8, muito distante dos 13,3 anos obtidos pelo total dos países. Essa forte disparidade também sucede nos 'operários' (5 anos em Portugal face a uma média total de 10,2) e nos 'trabalhadores independentes' (5 para 9,5, respectivamente). Por outro lado, é na classe dos quadros e técnicos onde a média nacional se aproxima mais da europeia (13,9 para 14,4).

Este cenário reforça as tendências que temos vindo a focar neste blogue: em Portugal o problema de deficit de escolarização não é exclusivo das classes trabalhadoras (operários e empregados no sector terciário), ela atinge simultaneamente a classe dirigente e empresarial. Este factor fortemente dualista resultante de um modelo económico assente numa dupla precariedade - que não se restringe apenas aos baixos salários auferidos pelos trabalhadores, mas simultaneamente pela situação periclitante da actividade dos pequenos e médios empresários - é potencializador de conflitualidade social. Estando os vários agentes constrangidos a uma situação económica tão restrita, acaba por se estabelecer uma relação de forças quase directa na qual os parcos benefícios de uns se transformam em enormes desvantagens para os outros. Sendo a margem tão limitada, a capacidade de negociação entre os parceiros sociais facilmente se transforma numa guerrilha. Perante esta realidade complicada, parece-me que dificilmente (e infelizmente, digo) os sindicatos poderão assumir outra estratégia que não seja a defensiva, que passa pela recusa em perder direitos adquiridos. Sobretudo, porque ela assenta num pressuposto legítimo de desconfiança em relação à posição negocial, muitas vezes inconsequente, demonstrada pela situação socioeconómica instável dos patrões. Estamos assim perante um quadro atrofiante, na qual parece não haver resolução à vista.

sábado, 7 de junho de 2008

Como não projectar o futuro

Este texto de Paul Krugman que o João Caetano linkou não é apenas uma pérola; é um sério aviso para o futuro. Krugman escreve como se estivesse em 2096 e olhasse para o mundo cem anos antes, e descrevesse a forma como, naquela altura, se projectava o século XXI. Em 1996, por altura do seu centenário, a revista do New York Times pediu a Paul Krugman - e a outros - para se imaginar a viver em 2096 e escrever um artigo sobre o passado. Vale a pena ler o texto, que abala os mitos que a ideia de "sociedade" ou a "economia do conhecimento" pode alimentar nos mais optimistas (ingénuos?) sobre o futuro.

É verdade que no futuro todos vamos trabalhar provavelmente mais com computadores e em serviços produtores de símbolos, numa economia "desmaterializada" e "limpa". Mas vamos todos mesmo? Este cenário é, infelizmente, irreal. Por muito que se continuem a criar empregos ricos e exigentes em conhecimentos e competências intelectuais e técnicas, não vão desaparecer os trabalhadores nos serviços da restauração, turismo, comércio de retalho, etc. Naturalmente, diferentes sociedades estão em diferentes momentos deste processo (permitam-me algum evolucionismo fácil): Portugal ainda precisa e vai criar muitos mais empregos altamente qualificados. É por isso que a luta no atraso no stock nacional de qualificações é absolutamente essencial.

Mas noutros países mais prósperos uma grande parte do emprego no futuro terá de ser criado em áreas onde as qualificações não são propriamente essenciais, como nos serviços de pouca produtividade de que dei exemplo acima (food-and-fun-jobs). Não tenho dados relativos a projecções aqui à mão neste momento - e sabemos que as projecções são falíveis -, mas a verdade é que se a sociedade pós-industrial não é propriamente o espaço idílico que os sociólogos e ensaístas norte-americanos dos anos 70 previam (o locus classicus é esta obra de Daniel Bell), a "sociedade pós-pós-industrial", independentemente da sua estrutura, continuará a precisar de muita gente que faça trabalho que valerá, tanto do ponto de vista simbólico como do económico, menos que outro mais estimulante e bem pago. E continuará estruturada em classes sociais. Não foi o comunismo que acabou com elas no passado; não será também a tecnocracia liberal que o fará no futuro.

E para isto o investimento em educação não pode ser a solução - nem a «educação, educação, educação» de Tony Blair -, ou pelo menos a única solução (se isto parece entrar em contradição com o post anterior, é porque o mundo é sempre mais complicado do que parece - e a redistribuição sempre mais exigente do que pensamos. A luta contra as desigualdades num mundo "pós-pós-industrial" (seja lá o que "isso" fôr, e seja lá quando fôr que isso chega) vai ter de continuar a apostar na redistribuição de recursos, de oportunidades, e de riscos). Nenhuma sociedade é tão "educada" como a norte-americana, e ela apresenta bem os problemas que decorrem da explosão de empregos nos food-and-fun-jobs: salários baixos e precariedade profissional que alimenta a enorme desigualdade salarial. Como resolver o problema do emprego, dos salários e das condições de contratação e de trabalho destes trabalhadores - o tal precariado do século XXI que substitui o proletariado industrial marxista - é uma das grandes questões que se coloca aos Estados sociais e ao esforço de redistribuição das políticas públicas.